Respirar é vida: entendendo as doenças respiratórias mais comuns na infância
Quando uma criança começa a respirar com dificuldade, fazer um chiado no peito ou tossir sem parar, o coração de qualquer pai ou mãe acelera. Duas das condições respiratórias mais frequentes na infância — a asma brônquica e a bronquiolite — são responsáveis por inúmeras visitas a pronto-socorro e internações hospitalares todos os anos. Conhecer essas doenças, entender como elas surgem e saber o que fazer pode fazer toda a diferença na vida da criança e da família.
Dra. Gabriela C. Gouveia – Cuidado médico infantil humanizado e baseada em evidências científicas (CRM-GO 39.001)
Olá! Meu nome é Gabriela, médica apaixonada pelo desenvolvimento infantil e dedicada a cuidar do bem mais precioso da sua vida: a saúde e o bem-estar dos seus filhos. Trabalho com atuação em urgência e emergência pediátrica, puericultura, laserterapia e planejamento/orientações pré-natal, assim como cuidado na sala de parto. Meu principal objetivo é proporcionar um acompanhamento médico integral, desde os primeiros minutos de vida até a adolescência, focando não apenas no tratamento clínico, mas principalmente na prevenção, no suporte à família e na promoção de uma infância saudável e feliz.
- Graduada em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV)
- Pós-graduanda em Saúde infantil pela Afya educação médica e em Pediatria geral pela Ignos Med
- Especialista em Laserterapia na pediatria e no puerpério pela AALASER
- Capacitada em Sala de parto, cuidados intermediários e intensivos neonatais, assim como alojamento conjunto pela NeoUp Preceptoria Médica
- Membro associada da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
- Atuação em atendimento médico infantil na UPA (Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia)
- Autora de capítulos de livro sobre “Erros inatos da imunidade” e “Reanimação Neonatal”, pela Editora Pasteur

ASMA BRÔNQUICA
A asma brônquica é uma doença crônica — ou seja, de longa duração — que afeta as vias aéreas, os “tubinhos” por onde o ar entra e sai dos pulmões. Nessas crianças, esses tubinhos ficam constantemente inflamados, como se estivessem sempre um pouco irritados. Quando algo provoca essa irritação ainda mais — como poeira, pelo de animal, fumaça de cigarro ou até uma gripe —, as vias aéreas ficam ainda mais estreitas, dificultando a passagem do ar.
O resultado são os sintomas clássicos da asma: chiado no peito (aquele som parecido com um apito), tosse persistente (especialmente à noite ou de madrugada), sensação de aperto no peito e falta de ar. O importante é saber que esses sintomas vêm e vão — às vezes a criança fica bem por semanas ou meses, e de repente tem uma crise.
Como a Asma acontece no corpo?
Para entender a asma, imagine as vias aéreas como mangueiras de jardim. Em uma criança saudável, essas mangueiras são largas e flexíveis, deixando o ar passar facilmente. Na criança com asma, as paredes dessas mangueiras ficam inchadas por dentro (inflamação), os músculos ao redor delas se contraem (broncoespasmo) e um muco espesso se acumula dentro delas. Tudo isso junto faz com que o espaço por onde o ar passa fique muito menor, causando dificuldade para respirar.
Essa inflamação crônica acontece porque o sistema imunológico da criança com asma reage de forma exagerada a certos estímulos — chamados de gatilhos. Os gatilhos mais comuns incluem: infecções virais (como resfriados e gripes), ácaros da poeira doméstica, pelos de animais, mofo, fumaça de cigarro, poluição do ar, exercício físico intenso e até mudanças bruscas de temperatura.
Quão comum é a asma nas crianças?
A asma é a doença crônica mais comum da infância no mundo inteiro. Estima-se que cerca de 14% das crianças em todo o mundo sejam afetadas por ela. Nos Estados Unidos, aproximadamente 8,6% das crianças têm asma. No Brasil, os números também são expressivos — o país está entre os que têm maior prevalência da doença na América Latina.
A asma pode começar em qualquer idade, mas metade das crianças com asma já apresenta os primeiros sintomas antes dos 3 anos de vida. Ela é mais comum em meninos do que em meninas na infância, embora essa diferença diminua na adolescência. Crianças com histórico familiar de asma, rinite alérgica ou eczema (alergia na pele) têm maior risco de desenvolver a doença.
Como a asma é tratada?
A boa notícia é que a asma tem tratamento eficaz, e a grande maioria das crianças consegue levar uma vida completamente normal com o controle adequado da doença. O objetivo do tratamento é simples: deixar a criança sem sintomas, permitindo que ela brinque, pratique esportes e durma bem.
O tratamento é dividido em dois tipos principais:
Medicamentos de alívio (para as crises): São os broncodilatadores de curta duração, como o salbutamol (albuterol), usados na forma de bombinha (inalador). Eles agem rapidamente, relaxando os músculos ao redor das vias aéreas e abrindo o espaço para o ar passar. São usados quando a criança está com crise — chiando, com falta de ar ou tosse intensa.
Medicamentos de controle (uso diário): Para crianças com asma persistente — aquelas que têm sintomas mais de dois dias por semana ou que acordam à noite com sintomas mais de duas vezes por mês —, é necessário um medicamento diário para controlar a inflamação. O mais indicado são os corticoides inalatórios (como a beclometasona ou budesonida), que reduzem a inflamação crônica das vias aéreas. Ao contrário do que muitos pais temem, esses corticoides inalatórios são muito diferentes dos corticoides tomados pela boca ou injetados — eles agem diretamente no pulmão, com pouquíssimos efeitos no resto do corpo quando usados nas doses corretas.
Em casos mais graves ou difíceis de controlar, o médico pode indicar outros medicamentos, como os broncodilatadores de longa duração (sempre em combinação com o corticoide inalatório) ou medicamentos biológicos modernos, que atuam em partes específicas do sistema imunológico.
Como prevenir as crises de asma?
A prevenção das crises passa, principalmente, por identificar e evitar os gatilhos da criança. Algumas medidas práticas que ajudam muito:
- Manter a casa limpa e arejada, reduzindo a presença de ácaros (usar capas antiácaros nos travesseiros e colchões, lavar roupas de cama semanalmente em água quente)
- Evitar animais de estimação com pelos dentro de casa, especialmente no quarto da criança
- Não fumar dentro de casa — a fumaça do cigarro é um dos piores gatilhos da asma
- Manter a criança vacinada, especialmente contra gripe e pneumonia
- Tratar alergias de nariz (rinite) adequadamente, pois elas pioram a asma
- Nunca interromper o medicamento de controle sem orientação médica, mesmo quando a criança estiver bem.

BRONQUIOLITE
O que é a bronquiolite?
A bronquiolite é uma infecção viral aguda — ou seja, que aparece de repente e dura um tempo limitado — que afeta os bronquíolos, que são os menores “tubinhos” dos pulmões. Diferente da asma, que é uma doença crônica, a bronquiolite é uma infecção que acontece uma vez (ou poucas vezes) e costuma melhorar sozinha em 1 a 2 semanas.
Ela afeta principalmente bebês e crianças pequenas com menos de 2 anos de idade, sendo mais grave em bebês com menos de 6 meses. Isso acontece porque os bronquíolos dos bebês são muito pequenos — qualquer inchaço ou acúmulo de muco dentro deles causa uma obstrução significativa.
Como a bronquiolite acontece no corpo?
O vírus mais comum causador da bronquiolite é o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), responsável por 60 a 80% dos casos. Outros vírus, como o rinovírus (causador do resfriado comum), o adenovírus e o metapneumovírus humano, também podem causar bronquiolite.
Quando o vírus infecta os bronquíolos, ele provoca inflamação, inchaço das paredes internas e acúmulo de muco e células mortas dentro dos tubinhos. Isso estreita o espaço por onde o ar passa, dificultando a respiração — especialmente a saída do ar dos pulmões. O bebê começa a respirar mais rápido, com mais esforço, e pode fazer um chiado característico.
A doença começa como um resfriado comum: coriza, espirros e febre baixa. Após 2 a 3 dias, os sintomas descem para o pulmão, e o bebê começa a respirar com dificuldade, com chiado e tosse. A alimentação também fica prejudicada, pois o bebê não consegue mamar ou tomar mamadeira direito por causa da falta de ar.
Quão comum é a bronquiolite?
A bronquiolite é a principal causa de internação hospitalar em bebês em países de alta renda. Nos Estados Unidos, são registradas mais de 100.000 internações por bronquiolite por ano em crianças com menos de 1 ano. No mundo todo, o VSR causa mais de 30 milhões de casos de infecção respiratória baixa em crianças menores de 5 anos anualmente, com cerca de 3,2 milhões de hospitalizações e 200.000 mortes — a maioria em países de baixa renda.
No hemisfério sul (incluindo o Brasil), os casos de bronquiolite são mais frequentes entre maio e julho, coincidindo com o inverno. Bebês prematuros, com doenças cardíacas congênitas, com sistema imunológico enfraquecido ou que vivem em ambientes com fumaça de cigarro têm maior risco de desenvolver bronquiolite grave.
Como a bronquiolite é tratada?
Aqui está uma informação que surpreende muitos pais: a bronquiolite não tem um tratamento específico que cure a doença. Isso porque ela é causada por vírus, e antibióticos não funcionam contra vírus. Além disso, estudos científicos de alta qualidade mostraram que medicamentos como broncodilatadores (as “bombinahs”) e corticoides — que funcionam bem na asma — não trazem benefício real na bronquiolite e não são recomendados de rotina.
O tratamento da bronquiolite é chamado de suporte, ou seja, ajudar o corpo do bebê enquanto ele mesmo combate o vírus:
- Hidratação: Garantir que o bebê esteja se alimentando bem é fundamental. Se ele não conseguir mamar ou tomar líquidos suficientes, pode ser necessária internação para receber soro na veia ou por sonda.
- Oxigênio: Se o bebê estiver com o nível de oxigênio no sangue baixo, ele recebe oxigênio suplementar pelo nariz. Em casos mais graves, pode ser necessário um suporte respiratório mais intenso, como o cateter de alto fluxo.
- Desobstrução nasal: Limpar o nariz do bebê com soro fisiológico ajuda a melhorar a respiração e a alimentação.
- Repouso e observação: A maioria dos bebês melhora em casa, com cuidados dos pais e acompanhamento médico. Mas é importante saber quando ir ao pronto-socorro.
Sinais de alerta que exigem atendimento imediato: respiração muito rápida ou com muito esforço (barriga “puxando” para dentro a cada respiração), lábios ou pontas dos dedos azulados, bebê muito sonolento ou difícil de acordar, recusa total de alimentação por mais de 8 horas.
Como prevenir a bronquiolite?
A prevenção da bronquiolite passa por medidas simples, mas muito eficazes:
- Higiene das mãos: Lavar as mãos com frequência é a medida mais importante para evitar a transmissão do VSR e outros vírus respiratórios.
- Evitar contato com pessoas doentes: Especialmente nos primeiros meses de vida, evitar levar o bebê a ambientes fechados e cheios de pessoas durante o inverno.
- Amamentação: O leite materno protege o bebê, pois contém anticorpos que ajudam a combater infecções.
- Não fumar perto do bebê: A fumaça do cigarro aumenta muito o risco de bronquiolite grave.
- Palivizumabe: Para bebês de alto risco (prematuros extremos, bebês com doenças cardíacas ou pulmonares graves), existe um medicamento preventivo chamado palivizumabe, que é um anticorpo aplicado mensalmente durante a temporada do VSR. Ele não é uma vacina, mas ajuda a proteger esses bebês mais vulneráveis.
- Vacina contra o VSR: Recentemente, foram aprovadas vacinas e anticorpos monoclonais (como o nirsevimabe) para proteção de bebês contra o VSR, representando um grande avanço na prevenção da bronquiolite.

Asma e Bronquiolite: Qual a diferença?
Muitos pais confundem as duas doenças, pois ambas causam chiado e dificuldade para respirar. A diferença principal está na duração e na causa: a bronquiolite é uma infecção viral aguda que afeta bebês pequenos e passa em algumas semanas; a asma é uma doença crônica e inflamatória que persiste ao longo da vida, com crises que vêm e vão. Vale lembrar que crianças que tiveram bronquiolite grave nos primeiros anos de vida têm maior chance de desenvolver asma mais tarde — por isso, o acompanhamento médico após a bronquiolite é importante.
Tanto a asma quanto a bronquiolite são condições sérias, mas que podem ser muito bem manejadas com o conhecimento certo e o acompanhamento médico adequado. Reconhecer os sintomas precocemente, seguir o tratamento indicado pelo pediatra, evitar os fatores de risco e saber quando buscar ajuda de emergência são as ferramentas mais poderosas nas mãos dos pais. Uma criança bem cuidada, mesmo com asma ou após uma bronquiolite, pode crescer saudável, ativa e feliz.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
- 2026 Global Strategy for Asthma Management and Prevention. Helen Reddel, Eric Bateman, Gerard FitzGerald, et al. Global Initiative for Asthma.
- Asthma. Papi A, Brightling C, Pedersen SE, Reddel HK. Lancet (London, England). 2018;391(10122):783-800. doi:10.1016/S0140-6736(17)33311-1.
- Bronchiolitis. Dalziel SR, Haskell L, O’Brien S, et al. Lancet (London, England). 2022;400(10349):392-406. doi:10.1016/S0140-6736(22)01016-9.
- Viral Bronchiolitis. Florin TA, Plint AC, Zorc JJ. Lancet (London, England). 2017;389(10065):211-224. doi:10.1016/S0140-6736(16)30951-5.
- Parenteral Versus Enteral Fluid Therapy for Children Hospitalised With Bronchiolitis. Gill PJ, Anwar MR, Kornelsen E, et al. The Cochrane Database of Systematic Reviews. 2021;12:CD013552. doi:10.1002/14651858.CD013552.pub2.
- Magnesium Sulphate for Treating Acute Bronchiolitis in Children Under Two Years of Age. Chandelia S, Kumar D, Tandon D, Makol J. The Cochrane Database of Systematic Reviews. 2026;3:CD012965. doi:10.1002/14651858.CD012965.pub3.
- Controversies in Pediatric Asthma: A Bibliometric Evaluation. Abulimiti K, Shoukeer K, Luo X. Pediatric Pulmonology. 2025;60(4):e71064. doi:10.1002/ppul.71064.