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Dra. Gabriela C. Gouveia – Cuidado Médico Infantil em Jardim América, Goiânia – GO

A ansiedade é uma das condições emocionais mais comuns na infância e na adolescência, mas também uma das mais mal compreendidas por famílias e educadores. Este texto explica, de forma simples, o que é a ansiedade patológica, por que ela acontece, quantas crianças são afetadas, como é tratada e o que pode ser feito para preveni-la.

Dra. Gabriela Gouveia – Cuidado médico infantil humanizado e baseado em evidências científicas (CRM-GO 39.001)

Olá! Meu nome é Gabriela, médica apaixonada pelo desenvolvimento infantil e dedicada a cuidar do bem mais precioso da sua vida: a saúde e o bem-estar dos seus filhos. Trabalho com atuação em urgência e emergência pediátrica, puericultura e planejamento/orientações pré-natal. Meu principal objetivo é proporcionar um acompanhamento médico integral, desde os primeiros dias de vida até a adolescência, focando não apenas no tratamento clínico, mas principalmente na prevenção, no suporte à família e na promoção de uma infância saudável e feliz.

  • Graduada em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV)
  • Pós-graduanda em Saúde infantil pela Afya educação médica e em Pediatria geral pela Ignos Med
  • Especialista em Laserterapia na pediatria e no puerpério pela AALASER
  • Capacitada em Sala de parto, cuidados intermediários e intensivos neonatais, assim como alojamento conjunto pela NeoUp Preceptoria Médica
  • Membro associada da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
  • Atuação em atendimento médico infantil na UPA (Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia)
  • Autora de capítulos de livro sobre “Erros inatos da imunidade” e “Reanimação Neonatal”, pela Editora Pasteur

O que é a ansiedade na infância?

Sentir medo, nervosismo ou preocupação faz parte do desenvolvimento normal de qualquer criança. Um bebê chora diante de estranhos, uma criança pequena tem medo de se separar dos pais, um pré-escolar teme monstros debaixo da cama, e um adolescente se preocupa com provas ou com a aceitação social. Esses medos costumam ser passageiros, proporcionais à situação e não atrapalham o dia a dia da criança.

A ansiedade se torna um problema de saúde – um “transtorno de ansiedade” – quando o medo ou a preocupação são excessivos, persistentes (durando semanas ou meses) e começam a atrapalhar a vida da criança: o rendimento escolar cai, ela evita ir à escola ou a festas, tem dificuldade para dormir, ou sofre sintomas físicos como dor de barriga e dor de cabeça sem causa médica identificada.

Existem vários tipos de transtornos de ansiedade que podem acometer crianças e adolescentes, entre eles:

  • Ansiedade de separação: medo intenso e fora do esperado para a idade de se afastar dos pais ou cuidadores.
  • Fobia específica: medo desproporcional de um objeto ou situação específica (animais, altura, sangue, etc.).
  • Ansiedade social (fobia social): medo intenso de ser julgado ou humilhado em situações sociais.
  • Mutismo seletivo: a criança fala normalmente em casa, mas fica muda em determinados ambientes sociais, como a escola.
  • Transtorno de ansiedade generalizada: preocupação excessiva e difícil de controlar sobre várias áreas da vida (escola, saúde, família).
  • Transtorno do pânico: crises súbitas de medo intenso acompanhadas de sintomas físicos como palpitação, falta de ar e tontura.

Para diferenciar um medo normal de um transtorno, os profissionais avaliam a intensidade, a duração dos sintomas, o sofrimento causado e o quanto isso prejudica o funcionamento da criança em casa, na escola e com os amigos.

Por que a ansiedade acontece? (fisiopatologia)

A ansiedade patológica resulta de uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e ambientais, e não de “fraqueza” ou “manha” da criança.

Do ponto de vista biológico, existe uma ativação exagerada de circuitos cerebrais responsáveis pela resposta de “luta ou fuga”, especialmente estruturas como a amígdala cerebral, que processa o medo, e o córtex pré-frontal, responsável por regular e “acalmar” essa resposta. Em crianças ansiosas, esse sistema de alarme tende a disparar com mais facilidade e a demorar mais para se desligar, mesmo diante de situações que não representam perigo real.

Fatores genéticos também têm papel importante: crianças com histórico familiar de ansiedade ou outros transtornos mentais têm maior risco de desenvolver o problema. Traços de temperamento presentes desde muito cedo, como a chamada “inibição comportamental” – uma tendência a reagir com timidez e retraimento diante do novo –, também aumentam a vulnerabilidade.

Fatores ambientais e psicológicos somam-se a essa predisposição biológica: experiências de estresse ou trauma, estilos parentais superprotetores ou críticos, bullying, e o próprio ambiente escolar e social podem desencadear ou perpetuar os sintomas. Vale destacar que a ansiedade também tem uma função adaptativa: em níveis normais, ela ajuda a criança a se manter alerta, a se preparar para desafios e a evitar riscos reais – o problema surge quando esse mecanismo passa a funcionar de forma desproporcional e persistente.

Quantas crianças são afetadas? (incidência e prevalência)

Os transtornos de ansiedade estão entre os diagnósticos psiquiátricos mais frequentes na infância e adolescência. Uma metanálise reunindo 41 estudos em 27 países estimou que, em um dado momento, cerca de 6,5% das crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos apresentam algum transtorno de ansiedade. Diretrizes americanas apontam números semelhantes, próximos a 7% em todo o mundo.

A frequência aumenta com a idade. Dados populacionais do Reino Unido mostram que a ansiedade afeta cerca de 3,9% das crianças de 5 a 10 anos, 7,9% dos adolescentes de 11 a 16 anos e 13,1% dos jovens de 17 a 19 anos. Ao longo da vida, estima-se que entre 20% e 30% dos adolescentes venham a apresentar algum transtorno de ansiedade.

A infância e a adolescência são, de fato, períodos críticos: metade de todos os transtornos de ansiedade tem seu início antes dos 18 anos. Fobias específicas e ansiedade de separação costumam começar mais cedo, por volta dos 8 anos, enquanto a fobia social costuma surgir por volta dos 13 anos.

Quanto ao sexo, meninas desenvolvem transtornos de ansiedade com o dobro da frequência dos meninos ao longo da vida. Curiosamente, um grande estudo dinamarquês publicado na JAMA Psychiatry mostrou que esse padrão se inverte conforme a idade: antes dos 13 anos, meninos são diagnosticados mais que meninas, mas a partir da pré-adolescência há um aumento acentuado nos diagnósticos em meninas, que ultrapassam os meninos e chegam a quase o dobro do risco cumulativo até os 18 anos (7,85% nas meninas contra 4,58% nos meninos). Estudos americanos mais recentes também mostram que a prevalência de ansiedade diagnosticada em crianças e jovens vem aumentando ao longo dos anos, com uma alta ainda mais acentuada durante e após a pandemia de covid-19.

Como a ansiedade é diagnosticada?

O diagnóstico é clínico, feito por meio de entrevista com a criança e com os pais ou cuidadores, incluindo histórico médico e psiquiátrico, histórico familiar, eventos estressores, funcionamento social e escolar, e avaliação de risco de autolesão. Existem questionários validados, como o SCARED e a Spence Children’s Anxiety Scale, que ajudam a rastrear e acompanhar os sintomas. O exame físico e exames laboratoriais são úteis principalmente para descartar causas médicas que podem mimetizar ansiedade, como o hipertireoidismo, mas raramente são necessários de rotina.

Como tratar a ansiedade na infância?

O tratamento da ansiedade infantil é bem estabelecido e eficaz na maioria dos casos, combinando abordagens psicológicas e, quando necessário, medicamentosas.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é considerada o tratamento de primeira linha, especialmente para quadros leves a moderados. Ela ensina a criança a identificar pensamentos e crenças que alimentam o medo, a enfrentar gradualmente as situações temidas (técnica chamada de exposição) e a desenvolver estratégias para lidar com o desconforto emocional.

Quando os sintomas são mais graves, ou quando a TCC não está disponível ou não é suficiente, o uso de medicamentos pode ser indicado. Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) têm bom respaldo científico como tratamento seguro e eficaz. A duloxetina, um inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina, é o único medicamento aprovado pela agência reguladora americana (FDA) especificamente para o transtorno de ansiedade generalizada em crianças a partir de 7 anos, embora outros medicamentos sejam frequentemente usados fora da bula, sob orientação médica.

A combinação de TCC com medicação costuma trazer os melhores resultados. Um estudo com 488 crianças com ansiedade social, ansiedade generalizada ou ansiedade de separação mostrou que a combinação de TCC com sertralina foi mais eficaz (81% de resposta) do que a TCC isolada (60%) ou a sertralina isolada (55%). Diretrizes da Academia Americana de Psiquiatria da Infância e Adolescência recomendam que crianças de 6 a 18 anos com esses diagnósticos recebam TCC ou um ISRS, podendo iniciar por qualquer uma das opções conforme a gravidade dos sintomas e a disponibilidade de terapia de qualidade, com a combinação sendo preferível na maioria dos casos. Quando medicamentos são usados, recomenda-se mantê-los por 6 a 12 meses após o desaparecimento dos sintomas, com redução gradual da dose, idealmente em período de menor estresse na vida da criança, como o início das férias escolares.

Revisões mais recentes reforçam que as terapias cognitivo-comportamentais seguem sendo as intervenções mais eficazes entre as opções não medicamentosas, superando outras abordagens psicossociais como mindfulness, e com resultados comparáveis aos antidepressivos. Outras técnicas baseadas em exposição, como a terapia de aceitação e compromisso e a terapia de exposição por realidade virtual, também vêm mostrando resultados promissores.

É possível prevenir a ansiedade infantil?

Embora não exista uma forma garantida de evitar completamente o desenvolvimento de um transtorno de ansiedade, algumas estratégias podem reduzir o risco ou identificar o problema precocemente, quando o tratamento tende a ser mais simples e eficaz.

A identificação precoce é fundamental: rastreamentos de saúde socioemocional em consultas pediátricas de rotina, na escola ou em outros ambientes de convívio infantil podem ajudar a detectar sinais de alerta antes que o quadro se agrave, permitindo intervenções mais simples, como orientação aos pais e manejo comportamental leve, em casos ainda subclínicos.

Outras medidas de apoio ao desenvolvimento emocional saudável incluem: promover um ambiente familiar seguro e acolhedor, evitar a superproteção excessiva (que pode reforçar a evitação de situações desafiadoras), estimular gradualmente a autonomia da criança diante de novas experiências, manter rotina de sono adequada, incentivar atividade física regular e limitar o tempo excessivo de telas, além de buscar ajuda profissional precocemente diante de sinais persistentes de sofrimento, como recusa escolar, queixas físicas repetidas sem causa médica ou isolamento social.

A prática regular de exercício físico também tem sido estudada como estratégia complementar tanto na prevenção quanto no tratamento de sintomas leves a moderados de ansiedade em crianças e adolescentes.

Considerações finais

A ansiedade na infância é comum, tratável e, na maioria dos casos, tem bom prognóstico quando identificada e tratada adequadamente. O desafio está em diferenciar o medo normal do desenvolvimento infantil de um transtorno que já compromete a vida da criança, e em garantir acesso a tratamentos eficazes como a terapia cognitivo-comportamental e, quando necessário, a medicação. A conscientização de pais, educadores e profissionais de saúde sobre os sinais de alerta é um passo importante para reduzir o atraso no diagnóstico, que hoje pode chegar a muitos anos entre o início dos sintomas e o início do tratamento.

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