A pele que coça: entendendo a dermatite atópica nas crianças
Imagine uma criança que não consegue dormir à noite porque a coceira é insuportável. Que acorda com marcas de arranhões no corpo. Que chora de desconforto enquanto os pais se sentem impotentes, sem saber o que fazer. Essa é a realidade de milhões de famílias que convivem com a dermatite atópica — uma das doenças de pele mais comuns na infância e, ao mesmo tempo, uma das mais impactantes para a qualidade de vida de toda a família.
Mas a boa notícia é que, com o conhecimento certo e o tratamento adequado, é possível controlar a doença e devolver à criança — e à família — noites tranquilas e dias mais confortáveis.
Dra. Gabriela C. Gouveia – Cuidado médico infantil humanizado e baseada em evidências científicas (CRM-GO 39.001)
Olá! Meu nome é Gabriela, médica apaixonada pelo desenvolvimento infantil e dedicada a cuidar do bem mais precioso da sua vida: a saúde e o bem-estar dos seus filhos. Trabalho com atuação em urgência e emergência pediátrica, puericultura e planejamento/orientações pré-natal. Meu principal objetivo é proporcionar um acompanhamento médico integral, desde os primeiros dias de vida até a adolescência, focando não apenas no tratamento clínico, mas principalmente na prevenção, no suporte à família e na promoção de uma infância saudável e feliz.
- Graduada em Medicina pela Universidade de Rio Verde (UNIRV)
- Pós-graduanda em Saúde infantil pela Afya educação médica e em Pediatria geral pela Ignos Med
- Especialista em Laserterapia na pediatria e no puerpério pela AALASER
- Capacitada em Sala de parto, cuidados intermediários e intensivos neonatais, assim como alojamento conjunto pela NeoUp Preceptoria Médica
- Membro associada da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)
- Atuação em atendimento médico infantil na UPA (Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia)
- Autora de capítulos de livro sobre “Erros inatos da imunidade” e “Reanimação Neonatal”, pela Editora Pasteur

O que é a dermatite atópica?
A dermatite atópica — também chamada de eczema atópico ou simplesmente eczema — é uma doença inflamatória crônica da pele. A palavra “dermatite” significa inflamação da pele, e “atópica” indica que essa inflamação está relacionada a uma tendência do sistema imunológico de reagir de forma exagerada a estímulos do ambiente.
Em termos simples: a pele da criança com dermatite atópica não funciona como deveria. Ela perde água com mais facilidade, fica ressecada, e sua barreira de proteção — que deveria funcionar como um “escudo” contra irritantes, alérgenos e micro-organismos — está comprometida. O resultado é uma pele sensível, inflamada, com coceira intensa e manchas avermelhadas que aparecem e desaparecem ao longo do tempo.
A dermatite atópica não é contagiosa. Não se pega pelo contato com a criança afetada. E, embora não tenha cura definitiva na maioria dos casos, pode ser muito bem controlada com o tratamento correto.

Por que a pele fica assim?
Para entender a dermatite atópica, é preciso imaginar a pele como uma parede de tijolos. Em uma pele saudável, os “tijolos” (as células da pele) estão bem encaixados, e o “cimento” entre eles (formado por proteínas e gorduras naturais) mantém tudo firme. Essa parede impede que a água saia e que substâncias irritantes entrem.
Na criança com dermatite atópica, essa parede tem falhas. Os “tijolos” não se encaixam bem, o “cimento” é deficiente — em parte por causa de alterações genéticas, especialmente em um gene chamado FLG, que produz uma proteína chamada filagrina, essencial para a integridade da pele. Com essa barreira comprometida:
- A pele perde água com facilidade, ficando ressecada e sensível.
- Substâncias do ambiente (poeira, ácaros, pelos de animais, produtos químicos) penetram mais facilmente na pele.
- O sistema imunológico da criança, ao detectar essas substâncias, reage de forma exagerada, causando inflamação.
- Essa inflamação gera coceira intensa — e quando a criança coça, a barreira da pele se danifica ainda mais, criando um ciclo vicioso de coceira, arranhão e mais inflamação.
Além disso, o microbioma da pele — o conjunto de micro-organismos que vivem naturalmente na superfície da pele e a protegem — também está alterado nas crianças com dermatite atópica. Uma bactéria chamada Staphylococcus aureus tende a se proliferar nessa pele comprometida, piorando a inflamação e aumentando o risco de infecções
Quão comum é a dermatite atópica?
A dermatite atópica é uma das doenças crônicas mais comuns na infância em todo o mundo. Estima-se que ela afete entre 20% e 25% das crianças — ou seja, 1 em cada 4 a 5 crianças pode ter a doença em algum momento da infância. Nos últimos 50 anos, sua prevalência triplicou nos países desenvolvidos, e hoje é considerada um problema de saúde pública global.
No Brasil, estudos indicam que a doença afeta entre 10% e 20% das crianças, com variações regionais. A doença começa cedo: em cerca de 60% dos casos, os primeiros sintomas aparecem antes dos 6 meses de vida, e em 90% dos casos, antes dos 5 anos de idade.
A dermatite atópica tende a melhorar com o crescimento — muitas crianças apresentam melhora significativa na adolescência. No entanto, em cerca de 30% a 40% dos casos, a doença persiste na vida adulta, especialmente nas formas mais graves.
Crianças com histórico familiar de dermatite atópica, asma ou rinite alérgica têm maior risco de desenvolver a doença. Isso porque todas essas condições fazem parte de um grupo chamado “doenças atópicas”, que compartilham uma base genética e imunológica comum.
A marcha alérgica: quando a dermatite é o começo de uma jornada
Um conceito importante para os pais entenderem é o da “marcha alérgica”. Em muitas crianças, a dermatite atópica é o primeiro passo de uma sequência de doenças alérgicas que se desenvolvem ao longo dos anos:
- Dermatite atópica — geralmente a primeira a aparecer, nos primeiros meses de vida.
- Alergia alimentar — especialmente à proteína do leite de vaca e ao ovo.
- Asma — chiado no peito e dificuldade para respirar.
- Rinite alérgica — coriza, espirros e coceira no nariz. Nem toda criança com dermatite atópica vai percorrer todos esses passos. Mas saber que esse risco existe ajuda os pais a ficarem atentos e a buscar acompanhamento médico adequado.

Como reconhecer a dermatite atópica?
Os sintomas da dermatite atópica variam de acordo com a idade da criança e com a gravidade da doença. O sinal mais marcante é a coceira intensa, que pode ser tão forte que impede a criança de dormir e de se concentrar nas atividades do dia a dia.
Em bebês (até 2 anos):
- Manchas vermelhas e úmidas, com pequenas bolinhas que podem soltar líquido.
- Aparecem principalmente no rosto (especialmente nas bochechas), no couro cabeludo, no pescoço e nos braços e pernas.
- A área da fralda geralmente é poupada.
Em crianças maiores (2 a 12 anos):
- As manchas tendem a se concentrar nas dobras do corpo: atrás dos joelhos, na parte interna dos cotovelos, no pescoço e nos pulsos.
- A pele fica mais espessa e com marcas de coceira (um processo chamado liquenificação).
- A pele ao redor das manchas costuma ser muito seca.
Em adolescentes:
- As lesões podem aparecer nas mãos, nos pés, no rosto e no pescoço.
- A pele fica espessa, escurecida e com marcas de coceira crônica.
A doença tem um padrão de “vai e vem”: períodos de melhora (chamados de remissão) se alternam com períodos de piora (chamados de surtos ou exacerbações). Fatores como calor, suor, estresse, infecções, contato com irritantes (sabonetes perfumados, tecidos sintéticos) e alérgenos (ácaros, pelos de animais) podem desencadear os surtos.
Como o médico diagnostica a dermatite atópica?
Não existe um exame de sangue ou teste específico que confirme a dermatite atópica. O diagnóstico é clínico — feito pelo médico com base na aparência da pele, nos sintomas relatados pelos pais e no histórico da criança.
O médico vai observar:
- A localização e o aspecto das lesões.
- A presença de coceira intensa.
- O histórico familiar de doenças alérgicas.
- A idade de início dos sintomas.
- A evolução da doença ao longo do tempo.
Em alguns casos, o médico pode solicitar testes de alergia (como o prick test ou dosagem de IgE no sangue) para identificar possíveis gatilhos alérgicos. Mas esses testes são complementares — o diagnóstico principal é sempre clínico.

Como a dermatite atópica é tratada?
O tratamento da dermatite atópica é baseado em três pilares fundamentais: hidratação da pele, controle da inflamação e identificação e evitação dos gatilhos. O objetivo não é curar a doença, mas controlá-la para que a criança tenha a melhor qualidade de vida possível.
1. Hidratação: o alicerce do tratamento
Hidratar a pele é a medida mais importante no tratamento da dermatite atópica. Os hidratantes (também chamados de emolientes) ajudam a restaurar a barreira da pele, reduzem a perda de água e diminuem a frequência dos surtos. As diretrizes da Academia Americana de Pediatria recomendam aplicar hidratante em todo o corpo pelo menos uma vez ao dia, de preferência logo após o banho, enquanto a pele ainda está levemente úmida. Cremes e pomadas são preferíveis a loções, pois têm menos água e são mais eficazes. O hidratante deve ser sem fragrância e sem corantes.
2. Banho: como e quando
O banho deve ser morno (nunca quente) e de curta duração (5 a 10 minutos). Sabonetes suaves e sem fragrância devem ser usados apenas nas áreas necessárias. Após o banho, a pele deve ser secada com leve pressão (sem esfregar) e o hidratante aplicado imediatamente.
3. Corticosteroides tópicos: o principal remédio para os surtos
Quando a pele está inflamada, o médico pode prescrever uma pomada ou creme com corticoide (como a hidrocortisona ou a betametasona) para ser aplicado nas áreas afetadas. Esses medicamentos reduzem a inflamação e a coceira de forma eficaz. Muitos pais têm medo de usar corticoides na pele do filho, mas quando usados corretamente — na potência certa, pelo tempo certo e na área certa — são seguros e muito eficazes. O uso incorreto (por tempo prolongado ou em áreas inadequadas) pode causar efeitos colaterais, por isso é fundamental seguir as orientações do médico.
4. Inibidores de calcineurina tópicos: uma alternativa aos corticoides
Medicamentos como o tacrolimo e o pimecrolimo em creme são uma alternativa aos corticoides, especialmente para áreas sensíveis como o rosto e as dobras. Eles também reduzem a inflamação, mas por um mecanismo diferente, e podem ser usados por períodos mais longos sem os efeitos colaterais dos corticoides.
5. Novos medicamentos tópicos
Nos últimos anos, surgiram novas opções de tratamento tópico, como o crisaborol, o ruxolitinibe e o tapinarof — medicamentos que atuam em alvos específicos da inflamação e são aprovados para uso em crianças. Eles representam avanços importantes, especialmente para casos em que os corticoides não são suficientes ou não são adequados.
6. Tratamentos sistêmicos: para casos moderados a graves
Quando a dermatite atópica é extensa e não responde aos tratamentos tópicos, o médico
pode indicar tratamentos que atuam em todo o organismo:
- Dupilumabe (Dupixent): Um medicamento biológico injetável que bloqueia as substâncias inflamatórias responsáveis pela dermatite atópica. É aprovado para crianças a partir de 6 meses de idade com doença moderada a grave. Representa uma revolução no tratamento da dermatite atópica grave.
- Inibidores de JAK (como o upadacitinibe e o abrocitinibe): Comprimidos que bloqueiam vias inflamatórias específicas. São aprovados para adolescentes a partir de 12 anos com doença moderada a grave.
- Nemolizumabe: Outro biológico injetável, aprovado para adolescentes a partir de 12 anos, que atua especificamente no controle da coceira intensa.
- Imunossupressores clássicos: Medicamentos como a ciclosporina, o metotrexato e a azatioprina podem ser usados em casos graves, mas com monitoramento cuidadoso devido aos efeitos colaterais.
- Fototerapia: A exposição controlada à luz ultravioleta pode ajudar a reduzir a inflamação em casos selecionados.

7. Controle da coceira
Anti-histamínicos orais podem ser usados para ajudar a controlar a coceira, especialmente à noite. Manter as unhas da criança curtas e limpas ajuda a reduzir o dano causado pelo ato de coçar.
Como prevenir a dermatite atópica?
A prevenção da dermatite atópica é um campo em rápida evolução. Algumas estratégias têm evidências científicas sólidas:
- Hidratação desde os primeiros dias de vida: Estudos recentes mostram que aplicar hidratante diariamente em bebês desde as primeiras semanas de vida pode reduzir o risco de desenvolver dermatite atópica. Um grande ensaio clínico publicado no JAMA Dermatology em 2025, com mais de 1.200 bebês, mostrou que a aplicação diária de hidratante a partir das 9 semanas de vida reduziu em 16% o risco de desenvolver dermatite atópica até os 2 anos de idade — e o efeito foi ainda maior (25% de redução) em bebês sem histórico familiar de risco.
- Amamentação: O leite materno oferece proteção imunológica ao bebê e é recomendado pela Organização Mundial da Saúde por pelo menos 6 meses. Embora as evidências sobre seu papel específico na prevenção da dermatite atópica sejam mistas, o aleitamento materno traz inúmeros benefícios para a saúde geral do bebê.
- Introdução alimentar adequada: Ao contrário do que se pensava antigamente, evitar alimentos potencialmente alergênicos não previne a dermatite atópica. A introdução precoce e regular de alimentos variados a partir dos 6 meses é recomendada.
- Evitar irritantes: Usar roupas de algodão macio, evitar sabonetes e produtos com fragrância, manter a temperatura do ambiente agradável (nem muito quente, nem muito frio) e controlar os ácaros em casa (lavando roupas de cama com frequência, usando capa antiácaros nos colchões e travesseiros) são medidas que ajudam a reduzir os gatilhos da doença.
- Probióticos: Há evidências crescentes de que o uso de probióticos durante a gestação e nos primeiros meses de vida pode ajudar a modular o sistema imunológico do bebê.
O impacto na qualidade de vida: além da pele
A dermatite atópica não afeta apenas a pele — ela afeta a vida inteira da criança e da família. A coceira intensa perturba o sono, o que prejudica o aprendizado, o humor e o desenvolvimento da criança. O aspecto visível das lesões pode causar constrangimento e bullying na escola. Os pais frequentemente relatam ansiedade, culpa e exaustão pelo cuidado constante que a doença exige.
Por isso, o tratamento da dermatite atópica vai além dos medicamentos. O suporte emocional à criança e à família, a educação sobre a doença e o acompanhamento regular com o médico são partes essenciais do cuidado.
A dermatite atópica é uma doença desafiadora, mas não invencível. Com o diagnóstico correto, o tratamento adequado e o cuidado diário com a pele, é possível controlar os sintomas, reduzir os surtos e garantir que a criança viva com conforto e qualidade de vida. Se o seu filho apresenta pele ressecada, coceira persistente ou manchas avermelhadas que aparecem e desaparecem, procure o pediatra ou um dermatologista. Quanto mais cedo o tratamento começar, melhores serão os resultados.
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